Como fazer zaragatoas – Estudo de Caso

zaragatoas mark 6 Centro de Prototipagem

São momentos como estes que vivemos que mostram como a sociedade portuguesa se une e mobiliza para enfrentar os problemas de frente. Este inimigo comum, o COVID-19, tem despertado uma resposta extraordinária a todos os níveis, e nós queríamos também juntar-nos à luta o melhor que conseguíssemos.

Testámos alguns equipamentos que sabíamos que poderiam vir a fazer falta, e contactámos a Universidade do Algarve para perceber quais as maiores necessidades de equipamento na região.

"Conseguem produzir zaragatoas?"

Entre a confusão e a surpresa, por não sabermos exatamente o que eram ou porque motivo havia escassez de zaragatoas, a nossa reação tão típica do nosso trabalho foi:

Quão complicado pode ser?

Não estávamos preparados para a dificuldade deste desafio, mas à medida que os problemas iam surgindo, íamos aprendendo e encontrando soluções para lhes responder e conseguir as primeiras zaragatoas produzidas em Portugal para os testes de COVID-19.

Disponibilizamos todo o nosso processo e conhecimento para que outros o possam replicar e para que, juntos, consigamos ultrapassar esta crise da melhor forma possível.

O que precisamos de saber?

O primeiro passo de qualquer projeto que desenvolvemos é uma pesquisa aprofundada sobre o que queremos produzir.

Para as zaragatoas não foi diferente. Começámos por falar com pessoas de várias áreas da medicina e saúde, recolhendo impressões de quem já as tinha utilizado em diferentes contextos. Isto deu-nos as bases para aprofundar a pesquisa na direção correta.

A falta de informação na internet sobre o método de produção mostrou o porquê de haver uma falta enorme de zaragatoas: é muito mais complicado de trabalhar o material do que parece à partida, pelo que quem as produz mantém o segredo bem fechado e protegido.

Em relação aos materiais, seguimos as recomendações da OMS: hastes em alumínio e ponta em dacron, uma fibra sintética semelhante ao algodão (o algodão é rejeitado pois sendo orgânico pode interferir nos testes).

zaragatoas mark6 prototyping

O método manual

Acho que não passaria pela cabeça de ninguém são fazer isto à mão. É um trabalho penoso, que requer paciência, concentração, alguns dedos potencialmente queimados e tempo precioso. 

Sim, foi exatamente isso que fizémos.

Em vez de começarmos a investir em automatização de um processo desconhecido, começámos por desenvolver um método manual para fazer zaragatoas e tentar automatizar os vários passos a partir daí. 

1. Preparação do alumínio

Usamos um fio de alumínio 0.8mm (pode ser usado 0.9), cortamos com um tamanho adequado (cerca de 35cm) e dobramos ao meio, sem vincar.

O meio do fio vai ser a pega da zaragatoa.

como fazer zaragatoas mark 6

2. A haste

O fio de alumínio é enrolado para dar estabilidade e firmeza. Nós utilizamos um berbequim, prendendo o centro do fio onde fica a pega no berbequim e as pontas num torno.

A seguir, é importante dobrar as pontas num pequeno arco, para não correr o risco de perfurar o dacron e magoar o utente. Quanto mais pequena a dobra, melhor.

A zaragatoa deve ficar com aproximadamente 15cm de comprimento.

3. O dacron

Para fazer a zaragatoa, é preciso uma ponta absorvente que não magoe a pessoa que será testada. O dacron é uma fibra sintética que, visualmente, é semelhante ao algodão. 

Fazemos uma pequena bola com o material, enrolando com as mãos até ficar o mais firme e enleada possível. 

Aquecemos a ponta da haste de alumínio (com uma pistola de ar quente, por exemplo) e metemos a haste dentro da bola. A alta temperatura (450º ou 500º) vai fazer com que o dacron cole no alumínio. 

A seguir, quando arrefecer o suficiente, rodamos a zaragatoa fazendo pressão no dacron com os dedos. 

Quanto maior a velocidade e a pressão exercida, mais firme vai ficar a ponta.

Importante:

  • A ponta de dacron deve ser estreita (máximo 5mm de diâmetro)
  • O dacron tem de ficar bem colado e firme, para não se desfazer durante a utilização
  • Se o dacron ficar demasiado ao longo do alumínio, é mais provável que se desprenda, pelo que quanto mais pequena a ponta, melhor (tendo em conta o conforto mínimo de não se sentir o alumínio)

4. Zona de quebra

As zaragatoas são usadas para a recolha de amostras das mucosas, sendo depois colocadas num tubo cilíndrico com um meio de cultura para identificar o que se pretende, neste caso o Covid-19. Para evitar qualquer contaminação de quem segura a haste e faz a recolha, tem de haver uma zona de quebra que permita deixar no tubo apenas a ponta com a amostra.

Usamos um alicate de corte para fazer uma micro fratura no local mais adequado, consoante o tipo de recolha.

Para o Covid-19, pediram esta zona de quebra a meio da haste.

Algumas notas sobre o nosso processo

O MARK 6 – Centro de Prototipagem não é especializado em material médico. Apenas pusemos as nossas capacidades de I&D e prototipagem rápida ao serviço da Saúde para ajudar nesta luta que é de todos.

A Universidade do Algarve está encarregue do processo de esterilização, bem como da produção do restante material para os testes. Isto ficou assente mesmo antes de aceitarmos procurar uma solução para a falta de zaragatoas, de outro modo não as estaríamos a produzir.

Libertámos o processo de fabrico de forma gratuita, para quem o quiser replicar. Ainda que este possa vir a sofrer evolução, esta é a nossa base de trabalho. O objetivo é que o máximo de entidades as possam produzir para fazermos frente ao COVID-10 da melhor forma. Pedimos apenas que tenham em conta as normas de segurança e esterilização.

Sobre nós

Somos uma pequena start-up algarvia focada em projetos de inovação com impacto. Temos experiência em áreas como energias renováveis, engenharia mecânica e impressão 3D, e canalizamos o nosso conhecimento científico para encontrar soluções criativas para os desafios que nos são propostos.

Para entrar em contacto connosco, basta enviar-nos um email para mark6.prototyping@gmail.com ou enviar uma mensagem através do formulário abaixo: